sábado, 3 de janeiro de 2009

CRANIOS DE CRISTAL

"Eu pessoalmente sinto que os Crânios de Cristal estão aqui, não apenas para compartilhar conhecimentos e sabedoria antiga, mas também para nos auxiliar no despertar da nossa raça para leis espirituais e auto-compreensão mais elevadas... Se os Crânios de Cristal não tiverem sido trazidos por extraterrestres, então certamente devemos concluir que devem ter havido civilizações muito mais avançadas, tecnologicamente ou espiritualmente, que a nossa própria civilização atual." --Joshua "Illinois" Shapiro

"[o] cristal estimula uma parte desconhecida do cérebro, abrindo uma porta psíquica para o absoluto." -- Frank Dorland

Os Crânios de Cristal são esculturas em pedra na forma de crânios humanos. As esculturas variam em tamanho, de poucas polegadas até o tamanho real. Algumas são feitas de puro cristal de quartzo, mas muitas são feitas de outros tipos de pedras, encontradas em abundância na Terra. Alguns crânios de pedra são artefatos genuínos de culturas meso-americanas, como os Astecas, e são conhecidos como máscaras de crânios ou cabeças da morte. Mas os crânios de cristal que interessam aos entusiastas da Nova Era, em busca de um Novo Paradigma para o próximo milênio, não são artefatos genuínos. Os cristais que intrigam os entusiastas da Nova Era alegadamente chegaram a nós através de Atlântida, originados de uma fonte extraterreste, e dotados de poderes mágicos como a produção espontânea de imagens holográficas e emissão de sons estranhos. Atualmente, milhões de crânios, feitos de vários tipos de pedras e metais, são fabricados em variados tamanhos para o mercado paratrinket da Nova Era, assim como para o mercado de réplicas de museu.

O mito dos crânios de cristal como extraterrestres e extra-poderosos parece ter começado com F.A. "Mike" Mitchell-Hedges (1882-1959) e sua filha adotiva Anna. Suas ficções criativas foram estabelecidas cientificamente por "luminares" como Frank Dorland e Richard Garvin. A obra destes "descobridores" foi coninuada por "Nick" Nocerino, fundador da Crystal Skull Society, e outros menos brilhantes como Ellie Crystal, que compara a busca pelos crânios de cristal à busca do Santo Graal, e Josh Shapiro, uma presença na Internet com um livro (com co-autoria de Nocerino e Sandra Bowen) e uma história à venda.

Mitchell-Hedges crystal skull of doomO crânio de cristal mais famoso é o "Skull of Doom" ("Crânio do Juízo Final") de Mitchell-Hedges, alegadamente descoberto por uma certa Anna Mitchell-Hedges, de 17 anos de idade, em 1924 ou 1927, enquanto ela acompanhava seu pai adotivo em uma escavação na antiga cidade Maia de Lubaantun, em Belize, onde o Mitchell-Hedges pai acreditava que iria encontrar as ruínas de Atlântida. Este crânio de quartzo claro mede aproximadamente 5,25 polegadas de altura e pesa mais ou menos 11 libras. Ele lembra superficialmente os crânios de cristal feitos pelos Astecas. Os crânios Astecas, entretanto, são estilizados. O crânio de Mitchell-Hedges é realístico, com uma mandíbula destacável.

Grande parte da lenda oculta e sinistra ao redor do assim chamado Skull of Doom, originou-se com Mitchell-Hedges, um homem com muitas qualidade admiráveis-- não estando o amor pela verdade e a honestidade, no entanto, entre elas.

O Skull of Doom é feito de puro cristal de rocha e, de acordo com cientistas, deve ter levado mais de 150 anos, geração após geração trabalhando todos os dias de suas vidas, pacientemente friccionando com areia um imenso bloco de cristal de rocha até que finalmente o Crânio perfeito surgiu.

Ele tem pelo menos 3.600 anos de idade e, de acordo com a lenda, foi usado pelo Sumo Sacerdote dos Maias quando executava rituais esotéricos. Diz-se que quando ele desejava a morte com a ajuda do crânio, a morte invariavelmente se seguia. Ele foi descrito como a incorporação de todo o mal (F.A. Mitchell-Hedges).

Mitchell-Hedges inventou todas essas afirmações. As evidências reunidas por Joe Nickell provam, acima de qualquer dúvida razoável, que o velho fraudador comprou o "paratrinket" em uma venda da Sotheby's em 1943 por 400 libras. O homem que possuía a peça, Sidney Burney, e aqueles que estavam na expedição de Lubaantun, negaram que Mitchell-Hedges tenha encontrado o crânio. O próprio Mitchell-Hedges nunca havia mencionado o crânio até exatamente após ele o ter comprado em 1943.

Anna deu continuidade à fraude. Embora não haja nenhuma evidência sequer de que ela estava em Lubaantun quando a descoberta supostamente ocorreu, ele tem sustentado que Burney manteve a peça apenas como penhor de seu pai até que ele pudesse pagar uma dívida que ele devia a Burney. Se foi assim, por que o pai dela simplesmente não pagou Burney, ao invés de disputar pelo item em um leilão? Anna recebeu alguma atenção e ganhou alguns dólares ao longo dos anos colocando o crânio em exibição, alegando que ele veio do espaço e que foi guardado em Atlântida antes de ser trazido a Belize.* Ela ainda tem a posse do crânio, mas parece ter se cansado da publicidade e o retirou da visão pública. Entretanto, ainda se acredita que ele traga má sorte a qualquer um que deboche dele, ou leia algo escrito por pessoas que debochem dele.

Em 1970, Anna deixou que Frank Dorland, um escultor de cristais, examinasse o crânio. Dorland declarou que ele é excelente para o scrying e que ele emite sons e luz, dependendo da posição dos planetas. Ele afirmou que o crânio teve origem em Atlântida e foi transportado pelo Templário dos Cavaleiros durante as Cruzadas.* Ele afirma que eles tiveram o crânio examinado em um laboratório da Hewlett-Packard. D. Trull acriticamente relata que o laboratório descobriu que o crânio

foi esculpido contra o eixo natural do cristal. Os escultores de cristal modernos sempre levam em consideração o eixo, ou orientação do cristal, porque se eles o esculpirem "contra a granulação", a peça tende a se estilhaçar -- mesmo com o uso de lasers e outros métodos de corte de alta tecnologia.

Para compor a estranheza, a HP não conseguiu encontrar nenhum arranhão microscópico no cristal que pudesse indicar que ele foi esculpido com instrumentos metálicos. A melhor hipótese de Dorland para a construção do crânio é de que ele foi foi grosseiramente talhado com diamantes, e então o detalhamento foi meticulosamente executado com uma suave solução de areia de silício e água. O trabalho exaustivo -- assumindo que ele poderia ter sido possivelmente feito assim -- teria exigido homens-hora chegando a 300 anos para se completar.*

Dorland forneceu seus "dados científicos" a Richard Garvin, um autor de livros sobre Leadbelly e os idosos, que os publicou em The crystal skull; the story of the mystery, myth and magic of the Mitchell-Hedges crystal skull discovered in a lost Mayan city during a search for Atlantis (1973) (O crânio de cristal; a história do mistério, mito e magia do crânio de cristal de Mitchell-Hedges descoberto em uma cidade perdida Maia durante uma busca por Atlântida).

Em pouco tempo, não era mais apenas a assim chamada inexplicável origem do crânio que atraía os entusiastas da Nova Era, mas alegações de seu poder curativo (apesar da afirmação do velho fraudador de que ele seria a incorporação do mal) e de suas propriedades mágicas.

A origem duvidosa do crânio de Mitchell-Hedges não deteve a crença nas suas propriedades misteriosas. Na verdade, há uma verdadeira abundância de crânios mágicos que apareceram ao longo dos anos (se treze puder ser considerado abundância -- 13 é um número especial para entusiastas da Nova Era, que acham que os crânios se comunicam um com o outro). Alguns destes crânios ainda são levados em turnês pelos seus donos. Entretando, um estudo de vários crânios de cristal feito pelo Museu Britânico em 1996, indica que a única mágica envolvida na criação desses crânios foi manter sua origem fraudulenta em segredo.

Um estudo de vários crânios de cristal, feito no Museu Britânico, concluiu que os crânios foram feitos na Alemanha dentro dos últimos 150 anos. A origem recente explica como eles foram feitos com ferramentas indisponíveis aos antigos Maias ou Astecas.

Usando microscópios eletrônicos, os pesquisadores descobriram que os crânios possuíam marcas superficiais retas, perfeitamente espaçadas, indicando o uso de uma moderna roda de polir. Objetos antigos genuínos mostrariam diminutos arranhões casuais resultantes do processo de polimento manual.*

Um resultado semelhante ocorreu em 1992 quando o instituto Smithsonian recebeu um crânio de cristal de uma fonte anônima, que afirmou que ele era um crânio asteca que havia sido trazido à Cidade do México em 1960. A pesquisa feita pelo Smithsonian concluiu que vários crânios de cristal populares no meio da Nova Era tiveram origem em Eugene Boban, um francês de caráter duvidoso. Boban comercializava antiguidades na Cidade do México entre 1860 e 1880, e parece ter adquirido seus crânios de uma fonte na Alemanha. Jane MacLaren Walsh, do Smithsnonian, concluiu que vários crânios de cristal mantidos em museus foram fabricados entre 1867 e 1886.*

Mais vigarice?

Outros assim chamados antigos crânios de cristal tiveram histórias tão dúbias quanto o de Mitchell-Hedges. Por exemplo, um crânio chamado de "Max" foi supostamente dado ao povo da Guatemala por um curandeiro tibetano. Outro par de crânios, conhecidos como O Crânio Britânico e O Crânio de Paris, foram alegadamente encontrados no México no fim do século 19 por mercenários. Eles são muito similares e um deles pode ter sido o modelo para o outro. Diz-se que o Crânio de Paris representa Mictlantccuhtli, o deus asteca dos mortos. Não se sabe que ele tenha quaisquer poderes ocultos, entretanto.

O Crânio Maia e o Crânio de Ametista foram alegadamete descobertos na Guatemala, no início deste século. "Nick" Nocerino afirma que ele conheceu um shaman em 1949, quando viajava pelo México, que o levou a um sacerdote maia que lhe disse que ele estaria autorizado a vender os crânios porque o povoado precisava de dinheiro para alimentos, mas de alguma forma Nick não os comprou e sim estudou-os cientificamente, assim como fizeram outros, e eles descobriram algumas coisas surpreendentes como que "sua origem está envolta em mistério" * e que o crânio teria o poder de dar a ele horas de visões significativas.* (Carlos Castaneda, ceda o seu lugar!)

O sr. Nocerino é o fundador da The Society of Crystal Skulls, International. Ele não dá muita importância à afirmação de que os crânios de cristal foram fabricados na Alemanha no século 19. A despeito da falta de evidências arqueológicas, ele está convicto de que os crânios são maias, etc., e que esses povos não tinham a habilidade, ferramentas, ou conhecimento para produzir tais objetos. Logo, eles devem ter vindo de Atlântida, a partir do espaço sideral. Parece a segura lógica da Nova Era para mim: sua verdade vibra em harmonia com as esferas! Como muitos dos que promovem o ocultismo da Nova Era, ele alega ser científico, assim presumivelmente reforçando a afirmação de que a ciência não pode explicar como aqueles índios burros teriam feito aqueles crânios. Naturalmente, sua sociedade inclui psicometria, visão remota, e scrying como parte de sua metodologia de pesquisa. Pode-se dizer que eles não querem deixar que nenhuma pedra fique sem ser revolvida, especialmente se por baixo puder estar um absurdo ou alguns trocados.

A despeito do fato de que réplicas são fáceis de fazer e estão disponíveis a partir de várias fontes, Nocerini, Ellie Crystal e semelhantes ainda afirmam que ninguém sabe como esses crânios foram feitos e que eles são impossíveis de ser duplicados.*

O que é mais provável? Que alienígenas tenham esculpido esses itens ou que (a) eles não foram esculpidos contra o eixo natural da pedra porque eles nem mesmo foram esculpidos, mas sim esmerilados, e são falsificações e não crânios mesoamericanos autênticos; ou, (b) o cristal nem sempre se estilhaça quando trabalhado "contra a granulação."

Não existe nem mesmo uma migalha de evidência de que esses crânios de cristal sejam de alguma forma misteriosos. O que é misterioso é sua persistente popularidade, e a persistente mitologia sobre suas origens e poderes.

Veja verbete relacionado sobre cristais.


leitura adicional

Nenhum comentário:

Postar um comentário